No sudeste asiático eu aprendi... ... que tudo acaba. O ódio, a guerra, a vida, as paixões. Acaba até a memória. Tudo acaba. Fabiana Zanni 12:39 PME aí?:
Pinga-pinga A viagem de volta começou no dia 24 e só foi terminar no dia 26. Graças às 9 horas de diferença de fuso, cheguei 'adiantada', ainda no dia 25 do Brasil. Foram cinco vôos que me levaram num pinga-pinga por Luang Prabang, Chiang Mai, Bancoc, Hong Kong, Johanesburgo e, finalmente, São Paulo. Cansativo? Estou um bagaço. Mas faria de novo, com certeza. Fabiana Zanni 12:38 PME aí?:
Último dia
Passei o último dia da viagem em Luang Prabang. À beira do Mekong, vendo as crianças brincarem, que é para não esquecer que a vida pode ser simples e muito, muito divertida
As crianças do Laos... ... não choram por qualquer coisa, correm soltas por ruas e calçadas, têm sempre um sorriso no rosto e, em todo corpo, aquela sujeirinha de quem aproveitou o dia. Como não têm pai, mãe nem babá atrás delas, brincam em qualquer lugar e se divertem com qualquer coisa.
Não têm barbie, não jogam no computador, não falam no celular. E carregam despreocupadas a felicidade de quem ainda brinca por brincar. Fabiana Zanni 12:24 PME aí?:
Pobre Uncle Ho Uma volta rapidinha ao Vietnã. Pobre Ho Chi Minh. Tanto esforço para botar franceses, japoneses e americanos para fora e implantar um regime livre do imperialismo. Na saída do mausoléu onde milhares de pessoas fazem fila para ver o seu corpo embalsamado todos os dias, o que é a última coisa que se vê? Uma lojinha vagabunda vendendo dinossauros de plástico. O maior dos inimigos não faria pior.
Laos O Laos eh um pedacco da Tailandia com uma pitada de Camboja salpicado de Vietna. Mas com uma calma que eh so dele.
Vientiene, capital do pais, eh uma cidade que ainda vai ser. Uma explosao de construccoes vai moldar essa vila tranquila nos anos que estao por vir. Como um recado aos desavisados, o hotel mais alto da cidade, construccao japonesa, eh o primeiro dente do monstrengo asiático na ainda banguela orla do Mekong.
Halong Bay e as vilas flutuantes A Baia de Halong, a 3,5 horas de Hanoi, eh um dos lugares mais bonitos do mundo. Sao centenas de pequenas ilhas, formaccoes rochosas moldadas pela agua e pelo vento depois de brotarem do fundo do mar ha milhoes de anos. Nao esperem fotos que mostrem a exuberancia do que se ve nos tres dias do roteiro que fiz por esta area. Duvido que consiga mostrar alguma coisa proxima da realidade. Para compensar, conto a historia das vilas flutuantes: uma serie de casinhas coloridas ligadas por passarelas que, quadra a quadra, formam as ruas e as calccadas por onde transitam moradores, cachorros e gatos dessas cidades sobre o mar. Sustentadas por toneis cheios de ar, elas oscilam de acordo com as mares e sao residencia fixa para familias de pescadores que tiram o sustento do fundo da baia. Ali, as crianccas aprendem a nadar antes de andar e barcos sao o meio de transporte obrigatorio para o contato com o mundo em terra firme.
Atlantida existe e fica no Vietna!
Casas Tubo Uma lei jah ultapassada moldou de forma curiosa a arquitetura vietnamita. Ateh algum tempo atras, os impostos territoriais nas cidades eram calculados de acordo com a extensao das fachadas das casas. Em uma demonstraccao de que driblar esse tipo de taxa eh um esporte universal, os vietnamitas criaram um desenho peculiar para suas casas e lojas: as `tube houses`, construccoes estreitas, com 3 metros de largura, 60 metros de comprimento e ateh 5 andares de altura. Sao casas fininhas, coladas umas aas outras, nem sempre (ou quase nunca) no mesmo estilo, que ainda hoje perfilam as ruas de muitas cidades. Fabiana Zanni 9:43 AME aí?:
Branca de Neve Eh de cocoras que os vietnamitas se sentem mais confortaveis. Nas ruas, nos restaurantes, nas casas, eles se acomodam, conversam, comem, passam o tempo sem pressa nessa posiccao. Com isso, alguns itens do mobiliario ocidental tiveram que passar por adaptaccoes. Cadeiras e mesas viraram cadeirinhas e mesinhas, bem mais perto do chao e dos padroes de conforto locais. O resultado eh uma viagem no tempo para essa gente grandalhona que são os turistas. Uma volta ao jardim da infancia que, no meu caso, teve o gosto de uma visita aa casa dos sete anoes num conto de fadas do outro lado do mundo.
E por falar em guerra Pulei propositalmente a visita a um outro museu, ainda no Camboja. Uma ex-prisao do tempo do Khmer Rouge onde milhares de pessoas foram torturada e assassinadas. Entre as celas e fotos de corpos retorcidos, um registro simples, mas inesquecivel. Nas fotos dos arquivos internos da prisao, lado a lado, os rostos de quem entrou para nunca mais sair. Homens, mulheres, muitas crianccas. Olhares de quem nao entende o que estah acontecendo, medo do que vai acontecer. Duvida, solidao, impotencia. Que dor.
A guerra americana Guerra do Vietna, por aqui, nao quer dizer muita coisa. Obvio, quando se olha para tras para ver que, ao longo da historia, os vietnamitas tiveram que botar para fora Chineses, franceses e japoneses antes da invasao dos americanos. Por isso, o conflito que devastou o pais nas decadas de 60 e 70 ficou conhecido como `Guerra Americana`.
Em Saigon, um museu originalmente denomidado `Museu dos Crimes de Guerra` e depois rebatizado `Museu dos Traumas de Guerra` para nao perturbar a jah fragil relaccao com os americanos, tem um registro emocionante do que aconteceu naqueles anos. Fotos, documentos, armas, testemunhas do horror por que passou este pais. Comecei a visita com raiva dos americanos. Saih triste, com vergonha. Vergonha de ser gente. Fabiana Zanni 9:35 AME aí?:
Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
A bomba e o que sobrou
A arte dos B-52 A historia de My Son, sitio arqueologico na regiao de Hoi An, no centro do Vietna, pode ser resumida mais ou menos assim:
Era uma vez os Cham, povo que dominou a area e construiu um conjunto de templos com influencia hindu por volta do seculo 7. Ficaram por ali ateh serem derrotados pelos Viets, que passaram a controlar a area. Os templos foram abandonados e saqueados, mas as estruturas sobreviveram, assim como esculturas e muitas escrituras, gravadas em pedra. O suficiente para registrar o grau de desenvolvimento dos Cham para quem viesse nos seculos seguiintes. O local permaneceu assim por centenas de anos, ateh que vieram os americanos, jogaram um monte de bombas e acabaram com tudo. Dos 70 templos originais, sobraram 20 esqueletos que disputam a atenccao dos turistas com crateras gigantescas que ainda sao vistas por ali.
Como marca a arte dos B-52.
Casal em visita às ruínas de My Son: incomunicável do início ao fim do dia
Os improvaveis casais do sudeste asiatico Eh quase sempre do mesmo jeito. Entram nos restaurantes, sentam, pedem, comem e saem mudos, sem troca de olhares, comentarios ou qualquer sinal de cumplicidade. Eles, geralmente grandes, gordos, loiros, pele rosada. Elas, pequenas orientais, muito mais jovens, nem sempre bonitas. Mulheres contratadas para acompanhar os turistas durante a viagem. Companhia de cama e mesa, interpretes que facilitam o transito em meio a costumes tao diferentes. Mesmo que, muitas vezes, nao falem mais que meia duzia de palavras em ingles.
Milionaria Primeira troca de dinheiro no Vietna. Um dolar vale 15,7 mil dongs, moeda local. Acabo de virar milionaria. Fabiana Zanni 9:57 AME aí?:
Saigon Soh para ficar registrado: o nome Saigon foi oficialmente substituido por Ho Chi Minh City. Mas como ninguem usa o novo nome por aqui, vou continuar fazendo como os locais nos meus posts, ok?
Os joggers de Phnom Penh Quatro horas da manha, eu na rua a caminho de Saigon. O trato com a companhia de onibus era esperar na frente do escritorio da empresa ateh a chegada do transporte. Sentada sobre a mochila, comeccava a ler sobre os hoteis no proximo destino quando um homem correndo chamou minha atenccao. Calcca social, sapatos e camisa, levantava os braccos em movimentos repetitivos. Ao chegar na esquina, voltou segurando o pescocco para um lado, depois para o outro.
Pouco depois, passa outro. E uma mulher, um casal, grupos de velhinhos. Alguns em roupas de ginastica, outros como o primeiro. Correndo, andando, balanccando os braccos meio sem jeito, em movimentos que eu nao classificaria como os mais corretos, mesmo nao sendo nenhuma frequentadora de academias. Meia hora depois (sim, o onibus atrasou), a rua estava cheia de gente, transformada numa academia a ceu aberto. Fabiana Zanni 9:51 AME aí?:
Segunda-feira, Janeiro 10, 2005
O melhor e o pior do transito Phnom Penh, capital do Camboja. Milhares de motos e bicicletas pontilham as ruas em um dos transitos mais loucos do mundo. Mao de direccao, farol, preferencia para pedestre? Esquecca. Atravessar a rua eh um desafio sem precedentes. Quem espera o fluxo parar, pode ficar dias no mesmo lugar. O jeito eh arriscar e enfrentar a multidao de veiculos que aparecem de todos os lugares (incluindo as calccadas) e tentar chegar ao outro lado. Nas primeiras vezes, dah medo. Mas nao eh que funciona? Mais que confiancca em si mesma, a gente aprende que tem que confiar nos outros, os motoristas. Eles desviam de voce e, no final, tudo flui no melhor dos jeitinhos asiaticos. Fabiana Zanni 9:45 AME aí?:
A foto que nao tirei hoje Meio-dia, sol quente. Tentando fugir do calor, acabei em uma ruazinha arborizada com casas do tempo do periodo colonial frances. Lah no chao, agachado, um homem com escova de dentes em punho. Concentrado no trabalho, limpava com dedicaccao o paralama de um BMW. O carro, claro, nao era dele. Fabiana Zanni 9:39 AME aí?:
Tonle Sap: melhor que a estrada
Outra coisa Uma viagem de 5 horas pelo Tonle Sap, um dos maiores lagos da Asia, e chegamos a Phnom Penh. Capital agitada, mas ainda uma cidadezinha se comparada a Bancoc. Lugar onde os contrastes sao mais evidentes, transito louco de motos e bicicletas, semáforos inúteis nas ruas agitadas, cardápios em francês nos bares para turistas e comércio de rua vivo, colorido.
Perna de pau Fora dos centros urbanos, a maior parte das casas eh construida sobre palafitas. As fortes chuvas de monccoes ensinaram que o chao nao eh o lugar mais seguro para viver. Na epoca da seca, o espacco sob as casas vira uma agradavel area de convivio familiar, com redes estendidas de uma perna a outra, mesas e bancos para as refeiccoes e crianccas brincando protegidas do sol. Cenas explicitas de vida para quem passa pelas estradas e assiste, curiosa e extasiada ao cineminha do cotidiano rural cambojano. Fabiana Zanni 9:26 AME aí?:
Sábado, Janeiro 08, 2005
Café com leite condensado: ainda bem que alguns costumes não se traz para casa
Café com leite Herança do tempo da colonização francesa, a baguete é uma das instituições nacionais. Caiu no gosto da população local como o café com leite. Este, para meu desespero, com uma pequena mas importantíssima adaptação: leite é leite condensado, que cria uma camada espessa na base do copo onde é normalmente servido, sob o café. O resultado é uma mistura bicolor que beira o melado, mas que é bom como o pior dos pecados
Jovens monges habitués do complexo arqueológico de Angkor: interação
Monges poliglotas Sol a pino, os turistas saem em busca de uma sombra e o templo mais importante do complexo fica quase vazio. Tento aproveitar a paz momentânea para entender uma sequência de esculturas quando uma carequinha aparece sobre o meu ombro direito. Um monge adolescente, dos muitos que colorem a região com as longas vestes laranja forte. Ele puxa conversa e começamos a falar. Havia lido que o local é ponto de peregrinação para budistas e pergunto naturalmente se ele visita as ruínas com frequência.
- Duas a três vezes por semana, quando posso.
- E voce vem para rezar?
- Não. Para praticar o meu inglês com os turistas.
Com vocês, a praticidade sagrada dos cambojanos ;-)
Meu Ano Novo no Camboja Lua cheia, ceu estrelado, baloes. Muitos. Um Sao Joao do outro lado do mundo. Fabiana Zanni 1:08 PME aí?:
Cartaz em uma das ruas da periferia de Siem Riep: talvez, o único sinal evidente aos turistas do passado trágico do país
Disneylandia No final da pior estrada do mundo (aquela que liga a Tailandia ao Camboja), Las Vegas! Siem Riep, cidade base para quem explora o complexo arqueologico de Angkor, eh tudo o que eu jamais havia imaginado. Toda essa historia de um dolar, dinheiro caindo a conta-gotas na mao do povo do camboja eh mixaria para este lugar. Hoteis monstruosos, comida de qualquer lugar do mundo, luxo. Tudo para satisfazer os turistas endinheirados do Japao e da Europa, que entram e saem do pais sem a menor ideia do que vi na estrada, por exemplo. Uma bolha de fartura alheia aos aleijados, ao perigo das minas, aos miseráveis.
Conta-gotas Aluguel de bicicleta - 1 dolar
Lavanderia - 1 dolar
Cafe da manha - 1 dolar
Garrafa de agua - 1 dolar
Eh como se o objetivo de cada pessoa por aqui fosse conseguir um dolar a cada contato com os turistas. Assim, os dolares vao pingando, um a um, nas maos dos cambojanos, que os recebem com alegria no rosto e um olhar paciente, de quem sabe que eh aos poucos que se avancca.
Passagem para o Camboja A pior estrada do mundo e quarenta anos de guerra separam o Camboja da Tailândia. Entrar no país é mergulhar na pobreza e ver de perto o que é devastação. Esta é a primeira vez em que visito um país saído de uma guerra recente. Ou melhor, de uma sucessão de guerras que acabaram não só com as estradas, mas com toda a infra-estrutura. Depois de tanto sofrimento, foram embora os franceses, o Khmer Rouge, Pol Pot, o Vietnã e ficaram Angkor, o maior e mais fascinante complexo de templos e palácios do sudeste asiático, e uma gente bonita, de sorriso facil e uma generosidade desconcertante. Que surpresa é o Camboja.
Angkor
Na magnitude e nos detalhes, nada a dever ao Vale dos Reis, no Egito
Apesar do caos, do transito, da desigualdade, Bancoc surpreende pela limpeza. As ruas nao tem papel no chao, as barraquinhas de comida nao dao medo e tem sempre alguem limpando alguma coisa no caminho. O costume aqui, como na maior parte da Asia, eh deixar os sapatos do lado de fora ao entrar em qualquer lugar. Casas, restaurantes, hoteis e templos tem sempre um amontoado de sapatos na porta. Ah, sim: e ninguem rouba
A comida tailandesa eh das mais apimentadas que jah provei. Em compensaccao, tem leite de coco, pasta de tamarindo e um cheiro que pega a gente na rua e arrasta para os bancos das pequenas barracas nos mercados. Eh um prazer que doi.
Mas que prazer!
Monge blade runner Bancoc eh uma mistura de Hong Kong, Dehli, Cidade do Mexico, Sao Paulo, Tokio.... sei lah. Passei os dois primeiros dias tentando achar referencias para desistir convencida de que a cidade eh o que eh. E tenho certeza de que, em nem 5 anos, vai ser uma coisa completamente diferente. Parece que cheguei no meio de uma revoluccao. Acho que o que melhor exemplifica isso eh o que acontece com os celulares. Essas coisas tocam o dia inteiro, em qualquer lugar. No onibus, no barco, no museu, no mercado... Todo mundo em Bancoc tem um telefoninho acoplado ao corpo. Impressionante, quando se ve a pobreza em que vive a maior parte das pessoas. Para muitos, eh o primeiro telefone da vida. Eles simplesmente pularam a etapa do telefone fixo.
A tecnologia avancca rapido e deixa atordoado quem ve uma cidade dividida. Na parte mais moderna, arranha-ceus produzidos em escala alucinante, pontos de onibus com telas de plasma para ajudar quem espera e shopping centers, lado a lado, ligados por passarelas na altura do primeiro andar. Olhar para cima, do nivel da rua, eh um desafio para quem procura o sol. Um emaranhado de passarelas, trilhos de trem suspensos e fileiras de janelas interminaveis na direccao do ceu criam um clima sombrio. Dao a impressao de que a noite eh eterna. Olhando de cima, parece ateh que os carros estao lah para compor a paisagem. O transito nao anda.
Tudo muito diferente da parte mais pobre, onde o principal meio de transporte eh fluvial e barcos chegam aos bairros por canais que cortam a miseria. Aqui, Bancoc eh a Veneza asiatica que ainda nao virou o seculo XX.
Boas-vindas Desta vez, foram 40 horas de viagem. Eu, que esperava visitar o Apartheid Museum no meio do caminho para aproveitar as 6 horas de espera no aeroporto de Johannesburg, acabei dormindo em um banco no portao de espera. Como eh que ainda nao aprendi como essas coisas cansam?
Mesmo assim, deu tudo certo. Voos tranquilos, muita comida de aviao, vizinhos de assento quietinhos, footing por infinitas lojas de aeroportos e, em meio ao lusco-fusco de um sono de dois dias, vi o sol nascer em Hong Kong. Nao dah pra reclamar.